"O grupo dominante coopta membros a partir de indícios mínimos de comportamento, como a boa conduta e a manutenção da ordem - entendidas como a arte de respeitar as regras do jogo até mesmo nas transgressões normatizadas pelas regras do jogo.
(....) O reprodutor oficial sabe produzir, no sentido etimológico do termo: producere significa "trazer ao dia", "conduzir à manifestação" - teatralizando o termo, trata-se de falar em nome de algo que ainda não existe (no sentido de não estar sensível ou visível). O reprodutor oficial deve produzir algo em nome daquilo que ele tem o direito de produzir. Ele não pode não teatralizar, não dar forma, não fazer milagres. O milagre mais ordinário, para um criador verbal, é o próprio milagre verbal, o êxito retórico; ele deve produzir o contexto que autoriza suas palavras, deve conformar a autoridade em nome da qual ele está autorizado a falar.
Encontrei a definição de "prosopopeia" que buscava agora a pouco: "figura de linguagem que atribui sentimentos e palavras humanas a animais, coisas personificadas, mortos ou ausentes". E no dicionário, instrumento sempre inspirador, encontramos esta frase de Baudelaire a respeito da poesia:"dominar sabiamente uma língua é praticar uma espécie de feitiço evocatório". Os clérigos - que manipulam uma linguagem erudita como os juristas e os poetas - devem colocar em cena o referente imaginário em nome do qual falam e produzem quando evocam discursos a partir de sua forma particular de linguagem; devem fazer existir aquilo que expressam e aquilo em nome do que expressam. Devem, ao mesmo tempo, produzir um discurso e uma convicção na universalidade desse discurso por meio da produção sensível, da evocação dos espíritos, fantasmas - o Estado é um fantasma... É dessa forma que "a nação", "os trabalhadores", "o povo", "o segredo de Estado", "a segurança nacional", "a demanda social" - "a qualidade do gasto" e "a gestão publica" (palavras nossas) - etc. são produzidos"
A fábrica da opinião pública. Pierre Bourdieu. Le monde diplomatique Brasil. Ano 5, nº54, pags. 14 e 15.
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